segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Cura-me Senhor


“Tendo Jesus navegado outra vez para a margem oposta, de novo afluiu a ele uma grande multidão. Ele se achava à beira do mar, quando um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo, se apresentou e, à sua vista, lançou-se aos seus pés, rogando-lhe com insistência: Minha filhinha está nas últimas. Vem, impõe-lhe as mãos para que se salve e viva” (Mc 5,21-23)
No episódio da filha de Jairo, vemos um pai aflito, perturbado pela situação em que sua filha se encontra. Ela estava moribunda, quase morta e precisava de um milagre. Seu pai já havia tentado tudo, procurado médicos, usado vários remédios sem muito resultado. Jairo era chefe da sinagoga responsável pela presidência da assembléia, supervisão dos cultos, leitura da Escritura, questões legais e administração da justiça. Portanto, um líder comunitário com uma influencia na comunidade. A situação que vivia sua família o obrigou a tomar uma decisão: ir ao encontro de Jesus. Ele procurou uma solução expondo sua angústia e sofrimento, pondo em risco sua reputação já que muitos líderes religiosos questionavam as ações do Senhor.
Como Pai, ele fez tudo o que podia para salvar sua filha. Ouviu falar dos milagres que Jesus fazia e não retardou em ir procurá-lo. No meio da multidão, Jairo se prosta, humilhando-se diante de todos na esperança de que o Senhor pudesse ajudá-lo. E eles partem caminhando na direção da casa dele. O caso é grave, é preciso pressa, pois a menina está convalescendo. No caminho alguém avisa: “não importunes mais o mestre, sua filha morreu”. Antes que o Pai se desesperasse, Jesus o consola dizendo “vamos”. “Mais o que ele ainda pode fazer?”, deve ter pensado esse chefe da sinagoga. A culpa, o remorso, a tristeza deviam ter invadido o seu coração nesse momento, mais mesmo assim, ele decide ir com o Senhor renovando o seu último suspiro de fé. Quando chegam a casa os lamentadores já estavam pranteando a menina que a pouco falecerá. “Não chores, a menina não morreu, disse Jesus”. As pessoas riram, debocharam. Outros se indignaram achando que ele zombava. Entraram no quarto da menina os pais e três apóstolos, Pedro, Tiago e João, que foram testemunhas do milagre. “Talitha qoum”, que em aramaico significa “menina, eu ordeno: levanta-te”. A alegria foi devolvida aquela casa e todos festejaram a sua nova vida.
Quantos pais não estão vivendo como Jairo sem esperança, desesperados, faltando às forças para continuar lutando? Que investiram tudo o que podiam para salvar os seus? O sofrimento dos filhos é dor que não ameniza, principalmente quando nos sentimos impotentes diante da situação. As lágrimas têm lavado o chão de muitas casas e muitos pais têm apelado pra qualquer coisa que possa resolver o problema.
Rezamos nesse momento pedindo que o Senhor escute o choro, gemido e impotência dos pais. Rezamos para que os pais confiem no Senhor e deixem que Ele seja seu amparo, consolo e proteção. Rezamos suplicando ao Senhor que venha, que nos acompanhe e se compadeça de nossa aflição.
Como Jairo, devemos procurar quem pode resolver nosso problema, e esse alguém é Jesus. Curiosamente podemos nos aproximar ou nos afastar do Senhor por causa da dor que sentimos. Conversei com uma senhora que havia me dito que o filho estava doente. Ela faz várias promessas, participava de correntes de oração para alcançar a cura do filho. Disse que tinha ido também ao centro espírita e feito um trabalho em uma casa de Umbanda. No nosso caminho podem surgir propostas ilusórias e enganadoras, vozes sedutoras e perversas. É preciso alertar que esse é um momento favorável para a ação diabólica e sem perceber nos vemos envolvidos em sombras e escuridão. 
Saúde é um processo harmonioso de bem-estar físico, psíquico, social e espiritual, e não apenas a ausência de doença. Devemos cuidar do “homem todo” para que ele viva de forma saudável. Isso exige de nós uma preocupação com o corpo e a alma, pois muitos males podem nos atingir provocando um estado de adoecimento.
Nesse sentido, algo que raramente nos preocupa é a alimentação. Isso é um grave erro porque comer bem me faz viver bem. Essa é uma luta diária que não se relaciona apenas com nossa sobrevivência, mas com a manutenção da vida, a vitalidade e a satisfação do individuo. Câmara Cascudo diz que é “inútil pensar que o alimento contenha apenas os elementos indispensáveis à nutrição. Contém substâncias imponderáveis e decisivas para o espírito, alegria, disposição criadora, bom humor”. O problema é que pertencemos a uma geração que come mal. A industrialização, as rotinas das cidades quase sempre aceleradas e agitadas, a ausência da mulher em casa por causa de sua presença no mercado de trabalho fez as pessoas começarem a procurar algo mais rápido e mais fácil para comer. Já não temos horários nem locais adequados para comer, e um reflexo desse mau hábito são as doenças crônicas que afetam desde crianças até idosos.
Isso também está relacionado com um antigo mal que é o da gula. Evágrio Pôntico nos alerta para esse problema  que ele chama de gastrimargia:
“A origem do fruto é a flor e a origem da disciplina espiritual é a moderação. Quem domina o próprio estômago, diminui as paixões; pelo contrário, quem é subjugado pela comida, aumenta os prazeres. Assim como Amalec é a origem dos povos, também a gula é a origem das paixões.”
São Tomás também  abordou essa doença em suas reflexões:
“A gula implica um desordenado desejo para comer. Ora, no comer duas coisas devem ser consideradas: o alimento que se come e a ação de comer. Daí os dois modos de entender essa concupiscência desordenada. Primeiro, quanto ao alimento que comemos. Assim, quanto à substância ou a espécie de comida, há quem procure alimentos refinados, isto é, caros [laute]; quanto à qualidade, há quem busque alimentos acuradamente preparados, isto é, meticulosamente [studiose]; e quanto à quantidade, há os que exageram, comendo em excesso [nimis]. - Em segundo lugar, considera-se a desordem da concupiscência, quanto ao ato de comer, ou por antecipar o tempo próprio para isso, isto é, apressadamente [praepropere]; ou por não observar a maneira conveniente de comer, isto é, avidamente [ardenter].”
            Como o ato de comer reflete um estado da alma, redescobrir hábitos saudáveis em nossas práticas alimentares pode influenciar a vida espiritual e social. A moderação é a virtude que nos auxilia a buscar a medida certa, não mais nem menos e sim o equilíbrio. Passo a olhar não para a comida, mas para aquele que come com o intuito de favorecer sua cura. Nesse processo, o relacionamento consigo mesmo e com os outros é beneficiado pela qualidade de vida, auto-estima, disposição e harmonia. Aprendemos que “se como bem, vivo bem, se como mal, vivo mal”.
            No processo de cura das doenças que atingem a nossa casa devemos recorrer aos meios espirituais e medicinais que possibilitem o restabelecimento do nosso bem-estar.
            Jairo recorreu a Jesus por reconhecer que ele poderia curar a doença da filha. Hoje, Nosso Senhor continua querendo curar o seu povo, restabelecer a saúde daqueles que sofrem. Devemos alertar também que muitas das doenças que tem atingido nossas casas são “psicossomáticas”. Sentimos dores no corpo, sofremos com complicações no intestino, estomago garganta, pulmões, músculos e articulações, coração, rins, bexiga e que não são explicadas por nenhuma doença ou alteração orgânica e sim por preocupações, angústia, ressentimento, rancor, culpa, ódio. Desgaste profissional, traumas, situações de violência, ansiedades e tristezas podem desencadear essas doenças que precisam ser tratadas. Devemos recorrer ao “médico dos médicos”, crer no seu poder, orar uns pelos implorando a intervenção divina.
            Os meios que nos são disponibilizados pela medicina não devem ser desprezados, ao contrário, precisam está associados ao processo de restabelecimento da nossa saúde:
“Honra o médico por causa da necessidade, pois foi o Altíssimo quem o criou. (Toda a medicina provém de Deus), e ele recebe presentes do rei: a ciência do médico o eleva em honra; ele é admirado na presença dos grandes. O Senhor fez a terra produzir os medicamentos: o homem sensato não os despreza. (...) O Altíssimo deu-lhes a ciência da medicina para ser honrado em suas maravilhas; e dela se serve para acalmar as dores e curá-las; o farmacêutico faz misturas agradáveis, compõe ungüentos úteis à saúde, e seu trabalho não terminará, até que a paz divina se estenda sobre a face da terra. Meu filho, se estiveres doente não te descuides de ti, mas ora ao Senhor, que te curará. Afasta-te do pecado, reergue as mãos e purifica teu coração de todo o pecado. Oferece um incenso suave e uma lembrança de flor de farinha; faze a oblação de uma vítima gorda. Em seguida dá lugar ao médico, pois ele foi criado por Deus; que ele não te deixe, pois sua arte te é necessária. Virá um tempo em que cairás nas mãos deles. E eles mesmos rogarão ao Senhor que mande por meio deles o alívio e a saúde (ao doente) segundo a finalidade de sua vida”. (Eclo 38,1-14)

domingo, 8 de setembro de 2019

As novelas de família - hoje e ontem, dramas e esperanças




“Alguns dias depois, Jesus entrou novamente em Carfanaum e souberam que ele estava em casa. Reuniu-se uma tal multidão, que não podiam encontrar lugar nem mesmo junto a porta” (Mc 2,1-2)
Você já viu o que acontece quando o povo se amontoa? As pessoas se empurram, gritam, se aborrecem. Hoje o povo continua se amontoando, aglomerando em vários lugares como estádios de futebol, shows, passeatas, manifestações, festas, peregrinações, etc. No estádio de futebol, por exemplo, todos se unem em uma mesma paixão, torcer pelo seu time. Uns saem felizes, outros tristes, ao final de uma partida. Ao longo da semana, irá se falar daquela partida, e às vezes por muito tempo, dependendo da importância daquele jogo. Mais nada consegue superar a força que os meios de comunicação têm para agregar, reunir e juntar pessoas sem que essas precisem se empurrar, atropelar ou bater. Milhares de pessoas acompanham ao mesmo tempo, a programação da TV. Existe o horário nobre da televisão, onde muitos acompanham atentos, sentados na sala ou em outro lugar da casa o que é exibido na programação. Opiniões, conceitos, juízo de valores e ideologias são transmitidas todos os dias em nossa casa. O que isso tem causado? Uma mudança de paradigma.

É inegável que vivemos uma “mudança de época” que pode ser percebido em todos os campos. Nos últimos anos, fomos vendo a desconfiguração do antigo regime de cristandade, onde tudo era movido pela fé cristã. Paulatinamente tem se procurado criar novos mecanismos de influencia que substitua a importância do cristianismo na sociedade e o melhor caminho que se encontrou pra isso foi através da cultura. Por um bom tempo fé e cultura andaram de mãos dadas e os esforços atuais são para dissocia-los o que tem causado um prejuízo a toda sociedade. Em nome de um novo projeto cultural, a fé cristã tem sido negligenciada, ironizada e pervertida.

Na antiga relação entre fé e cultura, os homens sempre criaram fábulas, lendas e mitos para narrar acontecimentos importantes ou transmitir lições para as novas gerações. A tarefa não era apenas entreter mais oferecer respostas aos dramas existenciais apontando caminhos para a superação dos desafios. A figura do herói aparece como um arquétipo que oferece um projeto a ser seguido, algo idealizado. Essa função atualmente foi assumida pela televisão.
Cada casa tem pelo menos um aparelho de televisão. Através dela, novos modelos culturais têm sido veiculados. São 8.760 horas de programação ininterruptas ao longo do ano provocando uma mudança que pode ser facilmente observado em nossas famílias. Uma pesquisa feita pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) apontou que existe uma relação entre o papel desempenhado pelas novelas e o crescimento dos divórcios. “A exposição a estilos de vida modernos mostrados na TV, a funções desempenhadas por mulheres emancipadas e uma crítica aos valores tradicionais mostrou estar associada aos aumentos nas frações de mulheres separadas e divorciadas nas áreas municipais brasileiras”, diz pesquisa. Segundo os autores do estudo, Alberto Chong e Eliana La Ferrara, “a parcela de mulheres que se separaram ou se divorciaram aumenta significativamente depois que o sinal da Globo se tornou disponível” nas cidades do país.
O que a pesquisa não aponta são os sofrimentos causados por causa dos divórcios. Toda separação é dolorosa, abre um verdadeiro corte no tecido social provocando um verdadeiro mosaico humano de cores terríveis. Muitos tentam reconstruir um novo lar trazendo pedaços de vidas e sonhos, esperanças, derrotas e fracassos que se juntam, deixando marcas na alma de algo arruinado. A conseqüência disso é perceptível: brigas, tristezas, vinganças, disputas judiciais, medo, angústia, insônia e isolamento são apenas alguns exemplos do que se vivencia depois de uma separação. Sem que se perceba, uma nova geração tem crescido sob esse signo que se reflete duramente na sociedade. Em forma de canção pe. Zezinho nos aponta o caminho para vencer esse mal, “que nenhuma família comece em qualquer de repente, que nenhuma família termine por falta de amor, que o casal seja um para o outro de corpo e de mente e que nada no mundo separe o casal sonhador”.
A nova indústria cultural tem nas novelas o seu grande divulgador das “normas” que devem pautar o comportamento social. Edgar Morin já denunciava que a cultura de massa “destituiu parcialmente a família, a escola, a pátria, do seu papel formador, na medida em que os ‘modelos’ do pai, do educador, dos grandes homens foram vencidos pelos novos modelos de cultura que lhe fazem concorrência”. A nova invenção tem sido a ideologia de gênero amplamente divulgada nas novelas. Basicamente podemos dizer que esse conceito afirma que ninguém nasce homem ou mulher, mas que cada indivíduo deve construir sua própria identidade, isto é, seu gênero, ao longo da vida. “Homem” e “mulher”, portanto, seriam apenas criações culturais que justificaram ao longo da história as relações de dominação que marcaram as famílias. Os comportamentos e definições do ser homem ou mulher não são coisas dadas pela natureza e pela biologia, mas pela cultura e pela sociedade, segundo a ideologia de gênero.
Isso tem causado uma grande confusão na cabeça de pais e filhos, crianças e adolescentes que acabam não tendo mais certeza sobre sua própria identidade. Isso tem várias conseqüências, mas o que gostaria de apontar é o apelo a “experimentação” como caminho para as descobertas. Isso é um mal sutil que tem invertido as relações. Como se acredita que não exista homem ou mulher, o papel desempenhado por ambos se tornou relativo, como por exemplo, o papel de pai ou mãe. Se fala de espaços de cuidado. Questiona-se comemorações como o dia dos pais ou das mães por considerar o constrangimento sofrido por aqueles que não tem pai ou mãe ou que não se identifica com esse estereótipo criado pela cultura ocidental. Os valores transmitidos pelo cristianismo como monogamia, a fidelidade, a exclusividade e compromisso definitivo foram minimizados dando lugar a uma “experiência de convivência” que anula esses valores em nome da satisfação de prazeres necessários para se descobrir as escolhas que se deve fazer.
Cremos no poder do amor que tudo transforma e que cria vínculos fortíssimos. Cremos que Deus criou homem e mulher para uma relação dialógica e complementar, ampliando assim, perspectivas e horizontes. Cremos na lição da cruz que nos ensina que para amar, precisamos aprender o que significa a doação de si mesmo. Cremos na força das relações familiares baseadas no respeito, na comunhão, no perdão, na responsabilidade, entrega e compromisso. Cremos que em Cristo descobrimos quem nós realmente somos, filhos de Deus, criados a sua imagem e semelhança, salvos pelo sacrifício do Filho amado.
Existe uma novela dramática com final feliz que dela participamos. O personagem principal é o próprio Filho de Deus, nascido da Virgem Maria, homem como nós. Cresceu na periferia de Nazaré, onde pode sentir as dores e sofrimentos do povo marginalizado. Contudo, sentado no colo da sua mãe aprendeu os valores da sua religião e testemunhou como jovem aquilo que aprendeu. Seu pai, honesto trabalhador, lhe ensinou o oficio da carpintaria e mesmo lhe deixando muito cedo, cumpriu seu papel sendo para o menino, pai cheio de sabedoria. Depois de um tempo, percebeu que era hora de deixar a casa da sua mãe para começar sua tarefa. Ele dizia a quem encontrava pelo caminho, “arrependei-vos e crede no Evangelho”. Não bateu nas portas do palácio, nem mesmo se dirigiu as estradas que lhe levavam até lá, ele preferiu os lugares afastados, as casas dos sem nome, os rostos dos pobres e desvalidos.
Sua fama incomodou a muitos que passaram a persegui-lo. As autoridades acompanhavam suas idas e vindas querendo apanhá-lo em algum erro que pudesse apagar sua importância. Não conseguiram. Por isso, tramaram, mentiram. Em um processo fraudulento foi preso e condenado a morte. De forma humilhante padeceu. A esperança findou, pensavam alguns. Mais não. A vida venceu a morte, ele havia dito que ressuscitaria ao terceiro dia.
Os capítulos dessa novela são contados e recontados ainda hoje. O personagem principal desse drama transforma anônimos em famosos. Em torno da sua casa (a Igreja) muitos continuam se aglomerando para ouvi-lo, para aprender suas valiosas lições.

sábado, 31 de agosto de 2019

A casa da sogra de Pedro



“Assim que saíram da sinagoga, dirigiram-se com Tiago e João à casa de Simão e Andre. A sogra de Simão estava de cama, com febre; e sem tardar, falaram-lhe a respeito dela. Aproximando-se ele, tomou-a pela mão e levantou-a. Imediatamente a febre a deixou e ela pôs-se a servi-los” (Mc 1,30-31).
            Jesus foi até a casa de André e Simão Pedro para descansar, depois de um longo dia de trabalho. “Sem tardar”, os que estavam em casa foram falar da sogra de Pedro, preocupados com o seu estado de saúde. Ela estava com febre. Podemos compreender a preocupação deles. Como o papel da mulher na cultura judaica consistia no cuidado da casa, sua enfermidade colocou em risco toda a “rotina” da casa que em grande parte, dependia da mulher. O trabalho do homem era completado pelo trabalho da mulher. Ele caça e pesca, ela cozinha. Ele apascenta o rebanho e ela cuida da tosquia e apanhar o leite. Ele colhe o fruto da terra e ela prepara. O autor do livro dos Provérbios elogia o papel da mulher virtuosa que coopera com o trabalho do homem: 
"Uma mulher virtuosa, quem pode encontrá-la? Superior ao das pérolas é o seu valor. Confia nela o coração de seu marido, e jamais lhe faltará coisa alguma. Ela lhe proporciona o bem, nunca o mal, em todos os dias de sua vida. Ela procura lã e linho e trabalha com mão alegre. Semelhante ao navio do mercador, manda vir seus víveres de longe. Levanta-se, ainda de noite, distribui a comida à sua casa e a tarefa às suas servas. (...) Põe a mão na roca, seus dedos manejam o fuso. Estende os braços ao infeliz e abre a mão ao indigente. Ela não teme a neve em sua casa, porque toda a sua família tem vestes duplas. Faz para si cobertas: suas vestes são de linho fino e de púrpura. (...) Vigia o andamento de sua casa e não come o pão da ociosidade” (31,10-27).
Com a emancipação da mulher, o seu papel na sociedade mudou mais ela continua sendo a “cuidadora”. A mulher pode dedicar horas ao trabalho “fora de casa”, mais quando chega, é ela que cuida de tudo. A rotina de uma casa funciona sob os olhares atentos de uma mulher, que exerce o governo de forma eficiente. A sua força se manifesta principalmente nessa capacidade de organização da casa, nosso lugar comum. O homem também desempenha esse papel de cuidador transmitindo aos seus, segurança e proteção. Em casa o homem não ajuda, ele cuida também. Participar das decisões, acompanhar a mulher, coopera com a rotina da casa, exercer uma paternidade ativa e responsável são tarefas que o homem deve realizar. Ambos, homem e mulher, em suas diferenças se completam, são parceiros, é assim que Deus os vê, é assim que eles precisam se vê também.
Jesus “aproxima-se dela”. Esse gesto é muito significativo. Em época de redes sociais, jogos on-line, televisão e novas tecnologias, chegar perto, estabelecer uma comunicação sem telas ou teclas se tornou um grande desafio. Nossos amigos são “virtuais”, o que faz com que nossas relações sejam cada vez mais superficiais. Vemos apenas imagens que muitas vezes se distanciam da realidade criando um mundo de aparências. Uma vez conversando com uma amiga, ela dizia que havia participado de um evento, e disse que se dependesse dela, não teria ido. Porem, sua foto da rede social dizia outra coisa.
Em nossa casa, tudo é real, e quem convive conosco nos conhece como somos. Não podemos deixar que em nossa casa se crie uma distância por causa dessas novas tecnologias. Muitas vezes, damos atenção a quem está a quilômetros de distância e não nos interessamos por quem mora conosco. É obvio, que não se espera que abandonemos as novas tecnologias mais que a usemos para favorecer um maior envolvimento com as pessoas, principalmente os da nossa casa.
. Nossa casa como uma pequena comunidade exige essa aproximação, envolvimento, pois sem isso, a convivência torna-se sem gosto, sem sabor. Estabelecer relações é uma necessidade que é saciada quando o outro presta atenção, interessa-se pelo que estamos vivendo.
As novas relações estabelecidas no ambiente familiar mudaram. Os pais têm uma exaustiva carga horária o que por vezes o afasta do convívio dos filhos, o que é um grande perigo. Fazendo uma simples atividade com uns alunos investigando sua arvore genealógica, me assustei porque muitos não sabiam o que os pais faziam, onde tinham nascido o que é reflexo do distanciamento que foi estabelecido. Criam-se muros de desconhecimento, desinteresse e indiferença que precisam ser derrubados. Ilhas foram criadas dentro da própria casa e é urgente trazer todos para terra firme pra que voltem a estabelecer vínculos.

Vínculos de parentesco existem e são fortíssimos, criando laços afetivos e efetivos indispensáveis para a cura das feridas causadas pelo distanciamento. Existem pais que estão abandonando os seus filhos morando debaixo do mesmo teto. Marido e mulher têm enterrado o interesse que antes existia um pelo outro. Alguns exemplos simples podem ilustrar isso. Quando você vai sair de casa, sua companheira lhe examina e logo emite uma opinião. Quando não se interessa mais, você sai de casa rasgado e ela nem presta mais atenção. Ela cortou o cabelo e você logo percebe. Quando a distância se estabelece, ela pinta o cabelo, corta e você vai notar uma semana depois. Os pais não acompanham a rotina escolar dos filhos, não sabem quem são seus amigos. Não se Importar, preocupar ou interessar-se por quem convive com você causa uma dor terrível, e isso reflete um enfraquecimento do amor.

Ao se aproximar da sogra de Simão, “Jesus a toma pela mão e a levanta”. Ela soube a partir daquele momento que não estava sozinha. No ano de 2015 minha esposa foi parar na UTI com um quadro de infecção generalizada. Muitos ficaram ao nosso lado, se aproximaram nos ajudando a passar por essa situação. Sozinhos somos fracos, juntos somos fortes. Essa é uma lição que precisamos aprender. Uma casa unida, onde a convivência é fortalecida a cada dia, não perece, mais vence qualquer tribulação.
Simbolicamente, podemos dizer que esse gesto de Nosso Senhor demonstra uma necessidade de presença afetiva capaz de curar, pois é o amor que cria “laços mais forte que a morte”. Devemos falar ao “Médico dos médicos” das nossas enfermidades, pois ele quer nos curar para restabelecer a boa convivência dentro da nossa casa. Ele quer nos curar da indiferença e egoísmo, do distanciamento e abandono que se criou dentro do lar. Devemos orar pelos males que crescem dentro da nossa casa pela falta de cuidado. Ao invés de reclamar da falta de cuidado da minha mulher, devo orar por ela pra que se estabeleça uma nova relação assinalada pelo amor e o perdão. Devo cuidar dela pra que assim, minha ação marcada pelo Espírito do Mestre, transforme sua vida. Oremos pra que os muros caiam e o casal, seus filhos e filhas se aproximem um do outro. Jesus ouviu o que disseram os moradores da casa de Pedro sobre sua sogra. Ele então se aproximou. Faça o mesmo, não deixe a distancia “fazer morrer” a beleza da convivência que pode curar nossas enfermidades.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

A casa de ISABEL


Quando Maria visita sua prima Isabel, “ela fica cheia do Espírito Santo” (1,41).

O anjo diz a Maria que algo prodigioso havia acontecido com Isabel sua prima. Ela estéril, concebe uma criança na velhice. Depois que o anjo a deixa, “ela sobe apressadamente” para encontrar sua prima. Quando Maria entra em sua casa, Isabel fica cheia do Espírito Santo, sua visita trouxe o grande dom do Pai aquela casa.
Maria foi uma inesperada visita que encheu a casa de Zacarias e Isabel da graça de Deus, “apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo”. O bendito fruto do seio de Maria transforma a casa de Isabel em um pequeno cenáculo (Lc 1,41).
          São Luís de Montfort diz no Tratado da verdadeira devoção que Maria é a verdadeira esposa do Espírito Santo, “Eis por que, quanto mais, em uma alma, ele encontra Maria, sua querida e inseparável esposa (do Espírito Santo), mais operante e poderoso se torna para produzir Jesus Cristo nessa alma, e essa alma em Jesus Cristo”. Pra minha casa se transformar em um pequeno cenáculo devo acolher Maria, receber sua visita bendita. Ela é a onipotência suplicante que roga continuamente ao Filho, para que o Espírito Santo nos transforme.
Uma forma simples de isso acontecer é através da Oração do Santo Rosário. Sobre essa oração, São João Paulo II afirmou: Nele ecoa a oração de Maria, o seu perene Magnificat pela obra da Encarnação redentora iniciada no seu ventre virginal. Com ele, o povo cristão frequenta a escola de Maria, para deixar-se introduzir na contemplação da beleza do rosto de Cristo e na experiência da profundidade do seu amor. Mediante o Rosário, o crente alcança a graça em abundância, como se a recebesse das mesmas mãos da Mãe do Redentor”. 
O Rosário é uma coroa de rosas, por isso mesmo Maria também é invocada com o título de Rosa Mística. Essa antiga oração se desenvolveu principalmente no meio do povo que encontrou nessa “divina inspiração” uma forma de se aproximar de Deus. Essa oração é em primeiro lugar, um exercício de contemplação. O Catecismo da Igreja Católica diz que contemplar “é um olhar de fé fito em Jesus”, por isso, cada mistério do Rosário é acompanhado da meditação de um episódio que marca a nossa história da salvação, da anunciação até a glorificação da qual Maria já participa. São João Paulo II afirmava que essa oração, apesar de sua “fisionomia mariana, no seu âmago é uma oração cristológica, pois concentra a mensagem evangélica, da qual é quase um compêndio”. Ao ritmo da Palavra meditada, a recitação nos ajuda a por os olhos naquele que é “autor e consumador da nossa fé” (Hb 12,2).
          Vamos recordar a história de outro casal: Tobias e Sara. É uma novela com final feliz. Logo no começo, um problema: o pai de Tobias fica cego, e o filho sai de casa com o objetivo de ajudá-lo. Ele faz um viajem, acompanhado de Rafael, que na verdade é um anjo. Ao chegar à casa de um parente, Tobias se enamora por Sara, que havia tentado várias vezes se casar, mas sempre na noite de núpcias, os seus maridos caiam mortos. Quando Tobias sabe disso, fica com medo, porque um terrível Demônio chamado Asmodeu, atormentava aquela jovem, causando um grande mal aquela família. O anjo Rafael diz a Tobias que tem a solução. Então, os dois entram no quarto e oram a Deus por sua salvação. Ninguém morreu, e a alegria voltou aquela casa. No final, o seu velho pai recebe a cura e celebra o casamento dos filhos. Como essa novela chega ao final feliz? Através da oração.
Na novela mencionada, a oração liberta toda aquela família do poder do mal. A palavra Asmodeu significa “aquele que faz perecer”. Ele reaparece no Testamento de Salomão como inimigo da união conjugal. O Demônio que ataca a Sara é inimigo da família. Se você destrói uma família, você põe em risco toda a sociedade, porque como se afirma “a família é a célula fundamental da sociedade”. Como podemos nos livrar do poder desse “inimigo”? A oração é a receita.
Tem-se descoberto a cada dia o quanto a oração do Rosário é arma eficaz na luta contra o mal, principalmente o mal que quer abater nossas famílias. Muitos são os testemunhos dos santos sobre a eficácia da oração do Rosário na luta contra a opressão do Demônio. Se o Demônio tem o poder de destruir uma família, Deus tem infinitamente mais poder de reconstruir.
Costuma-se dizer: família que reza unida permanece unida. São muitos os desafios que enfrentamos que podem “desunir”, separar o que foi ligado pelos laços do amor. Podemos dá um exemplo: problemas financeiros. São muitos os casos, onde a falta de dinheiro, causa um estrago na relação entre o casal. Não seria melhor enfrentar esse problema juntos? Não ficamos mais fortes quando estamos unidos? É justamente por isso que o Demônio quer atacar a união que existe no lar. Porque quando estamos desunidos nos enfraquecemos, e é isso que Jesus afirma quando diz que uma “casa dividida contra si mesma não subsiste”. A ruína de uma casa está na desunião. A reconstrução de uma casa está na união. É a oração que une a família.
             Quando lutamos devemos conhecer nossos inimigos. Se fizermos isso, nossas chances de vencer são bem maiores. Essa luta é enfrentada todos os dias e a nossa casa é um grande campo de batalha. Todos os dias somos atacados por ideologias que são espalhadas através de livros, revistas, filmes, novelas, desenhos, propagandas, que deixam um rastro de perversidade, infidelidade, rebeldia, desunião, indisciplina.
Em nossa carne pulsa um desejo que se opõe ao Espírito (Cf. Gl 5,17ss). Quando alimentamos a carne, enfraquecemos o Espírito. Esse desejo pode nos arrastar para o lado do inimigo e sem perceber estaremos lutando ao lado do nosso adversário. Paulo nos exorta sobre os males que podem destruir uma família, e quero alerta-los sobre um desses males: a bebedeira.
O consumo excessivo de bebidas alcoólicas tem comprometido a saúde física e mental além de por em risco o orçamento doméstico. Abusos e violências podem marcar a vida de quem não modera esse prazer. O álcool é a substância psicoativa mais popular do planeta. Como é uma droga podemos perceber facilmente uma multidão de dependentes por todos os cantos do planeta obrigando a OMS (Organização Mundial da Saúde) a considerar o alcoolismo uma doença. Vemos homens e mulheres transformar esse prazer em pranto.
Alguns fatores podem tornar as pessoas mais vulneráveis à bebida como a ansiedade, angustia e insegurança. Brigas, desentendimentos, rivalidades, inimizades, disputas são acentuadas por causa do consumo excessivo de bebidas alcoólicas provocando comportamentos imprevisíveis, desajustes e sofrimentos a todos os envolvidos.
As propagandas lucram milhões em todo o mundo enquanto famílias são destruídas por causa do consumo excessivo de bebidas. Não podemos perder essa luta! Por isso devemos agir em três âmbitos: prevenção, intervenção e restauração. É melhor PREVENIR do que remediar, por isso devemos alerta a todos dos riscos que nos cercam. INTERVIR através da oração, da amizade e do testemunho junto aqueles que estão dando sinais de desestruturação. RESTAURAR é o passo mais difícil, pois o que se espera aqui é restabelecer a dignidade que foi perdida.
Todo o que nasceu de Deus venceu o mundo. E esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé (1 Jo 5,4). Oremos, pedindo a intercessão de Nossa Senhora, principalmente na luta contra os males que querem destruir nossa casa. Que nos unamos a Senhora das Dores, que não se cansa de levantar os caídos, machucados, feridos.  São João Paulo II diz que “podemos incluir, nas dezenas do Rosário, todos os fatos da nossa vida, da família, da nação, da Igreja e da humanidade. Acontecimentos pessoais e do próximo, daqueles que nos são mais familiares e que mais estimamos. A oração do Rosário marca o ritmo da vida humana”. Como estamos vendo, as lutas diárias são árduas, por isso recorremos continuamente a Mãe de Deus pois sabemos que ela combate por nós, que não nos abandona e que propõe o caminho seguro para a nossa vitória: o sacrifício de Cristo Jesus, seu Filho morto e ressuscitado.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

A casa de Nazaré


"Naqueles tempos apareceu um decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de toda a terra. Este recenseamento foi feito antes do governo de Quirino, na Síria. Todos iam alistar-se, cada um na sua cidade. Também José subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, à Judéia, à Cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, para se alistar com a sua esposa Maria, que estava grávida (...) Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o menino, foi-lhe posto o nome de Jesus, como lhe tinha chamado o anjo, antes de ser concebido no seio materno. Concluídos os dias da sua purificação segundo a Lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para o apresentar ao Senhor (...) Após terem observado tudo segundo a lei do Senhor, voltaram para a Galiléia, à sua cidade de Nazaré. O menino ia crescendo e se fortificava: estava cheio de sabedoria, e a graça de Deus repousava nele”. (Lc 2, 1ss)
Quis o Filho de Deus, o Emanuel (Deus conosco) “fazer morada” no seio de uma família, viver o cotidiano de uma casa. Mas, qual é mesmo o cotidiano de uma casa? Essa é uma resposta que todos podem dar. Cada um dentro da sua realidade própria vive uma rotina. Acordar, tomar café, se arrumar pra ir ao trabalho, deixar os filhos na escola. Hora do almoço, bate papo com os colegas do trabalho. Olhamos para o relógio várias vezes, afinal, o tempo marca todas as nossas ações. Esperamos ansiosamente pelo fim do expediente, pela hora de voltar para casa, descansar, se encontrar com familiares e amigos, ir ao bar, a academia ou simplesmente ficar na frente da televisão acompanhando a programação que nos interessa. São tantas as nossas obrigações, que a rotina pode nos transformar em robôs, automatizando nossas relações o que impede de “bem contar os nossos dias” (Cf. Sl 89,12).
Dentro do nosso contexto social, o nosso cotidiano segue certo ritual. Para as crianças e jovens, o ritual da vida estudantil, esportiva, afetiva (paqueras, namoros, amigos...). Para os adultos o ritual é outro: trabalho, casamento, finanças, moradia, saúde, educação, lazer. Em cada etapa da vida seguimos um ritual próprio, que caracteriza o nosso cotidiano. Sejam ricos ou pobres, crianças ou adultos, todos tem responsabilidades ao longo da sua vida. Todos precisam “aprender a viver”, dar sentido a própria existência, fazer com que as experiências vividas sejam “prenhas” de valores fazendo com que a rotina ganhe um novo sentido. É através da experiência com Deus que passamos a encontrar um significado para nossa existência, cultivando essa presença que nos faz re-descobrir que cada passo da nossa vivência não é em vão. 
Para “aprender a viver” colocamos os nossos olhos na família de Nazaré. Qual a rotina de Maria, José e Jesus? Maria acordava cedo pra preparar a refeição como toda mulher do seu tempo, cuidar dos trabalhos domésticos, cozinhar, costurar, essas eram algumas de suas obrigações. José saia cedo para o trabalho, porque como sabemos, ele tinha uma profissão, era carpinteiro, e Jesus era conhecido na cidade como o “filho do carpinteiro” e deve ter aprendido esse ofício com seu pai. Na sociedade patriarcal, José é “o pai”, ele é o chefe, é quem cuida do sustento da casa. Todos freqüentavam a sinagoga e celebravam as tradições e costumes de um judeu piedoso. Por que essa casa se transformou em um modelo “para todas as nossas casas?”, Que diferença marca essa família? A diferença está justamente em transformar o ordinário em extra-ordinário. A santidade familiar consiste nisso.
                        Por que a Sagrada Família é modelo de santidade familiar? Porque eles souberam transformar o ordinário em extraordinário, fizeram do cotidiano de suas vidas uma forma de fazer a vontade de Deus. O que fizeram José e Maria ao longo da sua vida? Simplesmente transformaram o ritual de cada dia em algo extraordinário, permeado de amor, porque essa é a medida de toda santidade familiar: o amor nosso de cada dia, renovado, cultivado, cativado, celebrado! Mais isso não depende só da nossa vontade. Deus é amor (1 Jo 4,8) e Nele aprendemos a amar. Foi isso que José e Maria fizeram, deixaram-se amar por Deus. As historias, normas, credos, sagas, façanhas, poemas e narrativas do seu povo fizeram com que eles embarcassem na mais incrível aventura de todas, que é a de sentir-se amado por Deus. Dessa forma, o que importava pra eles era agradar a Deus, se submeter a Ele com reverência, obediência e satisfação. O que José e Maria fizeram foi uma resposta grata ao chamado divino, o seu fiat continua ressoando até hoje. Eles descobriram que é nisto que consiste a verdadeira felicidade.
            Maria estava prometida a José, e em bem pouco tempo passariam a viver juntos. Era o costume da época, porém a divina providência reservava uma surpresa pra ambos. A Virgem Filha de Sião vivia na periferia, em Nazaré, e recebeu uma visita inesperada. O anjo Gabriel aparece em sua casa e a saúda “alegra-te cheia de graça”. A Palavra de Deus alcança Maria em meio à rotina do seu dia a dia. No diálogo ela aceita o projeto de Deus, se entrega, se coloca na condição de serva. José também recebe a visita do anjo. É um homem justo, e por isso participa do projeto de Deus. Ele conhecia a profecia que dizia que uma virgem conceberia e daria a luz a um menino (Cf. Is 7,14), o que José não sabia era que Maria, sua noiva, tinha sido escolhida por Deus para ser a jovem da profecia. Então ele recebe Maria em sua casa. Eles passaram a viver juntos na alegria do chamado que lhes foi feito.
            As paredes da casa de Nazaré escondem a alegria do chamado que Deus fez a esse casal. Nós podemos seguir seu exemplo, porque as vicissitudes de seu dia-a-dia são as nossas hoje. A diferença é que a presença de Deus foi celebrada a cada dia naquela casa, transformando o ordinário em extraoridinário.
A vida em uma casa começa com uma forte decisão, ambos decidem compartilhar seus sonhos, projetos, planos, interesses, sucessos e fracassos. Mais quantos casais submetem a Deus a sua decisão de viverem  juntos? Em uma canção pe. Zezinho expõe uma preocupação que tem importado a poucos, “que nenhuma família comece em qualquer de repente”. Deus deve está no começo dessa importante decisão que o casal pretende tomar, se tornando o companheiro dessa jornada que apenas se inicia.
  Cremos que de forma misteriosa Deus aproxima os dois, homem e mulher são criados em uma relação de complementaridade e na convivência vão re-criando o projeto original do Criador que quis fazer dessa união um só corpo, que depois de unido, não pode separado. Temos visto que quando separado, se abre uma grande cisão no tecido social com conseqüências trágicas.
É de grande valor a vida do casal. A celebração do amor no cotidiano se torna um sacramento para o mundo onde as pessoas podem reconhecer a Deus que quer se manifestar através dessa união. O fato de ser Deus quem apresenta a mulher ao homem (Cf. Gn 2,18) é de grande força simbólica, porque no começo de toda vivência matrimonial está à mão de Deus que atrai homem e a mulher a uma vocação. É diante de Deus que o casal dar o seu consentimento, por isso, além dos compromissos familiares que assumem a partir de então, pesa sobre a “nova casa” compromissos cristãos que não podem ser abandonados sobe pena de vir a ruir todo o edifício construído.
Compreendemos que a decisão que marca a nossa casa deve ser a mesma da Sagrada Família. Peçamos a intercessão de Jesus, Maria e José para viver um amor fecundo capaz de re-criar novas relações que façam da nossa rotina uma grande descoberta. Nossa extraordinária história começou a ser escrita e Deus ainda não colocou o ponto final, portanto, rogamos ao Espírito que guie nossos passos na direção da casa de Nazaré, para criar um desejo continuo de fazer a vontade de Deus.