segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Cura-me Senhor


“Tendo Jesus navegado outra vez para a margem oposta, de novo afluiu a ele uma grande multidão. Ele se achava à beira do mar, quando um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo, se apresentou e, à sua vista, lançou-se aos seus pés, rogando-lhe com insistência: Minha filhinha está nas últimas. Vem, impõe-lhe as mãos para que se salve e viva” (Mc 5,21-23)
No episódio da filha de Jairo, vemos um pai aflito, perturbado pela situação em que sua filha se encontra. Ela estava moribunda, quase morta e precisava de um milagre. Seu pai já havia tentado tudo, procurado médicos, usado vários remédios sem muito resultado. Jairo era chefe da sinagoga responsável pela presidência da assembléia, supervisão dos cultos, leitura da Escritura, questões legais e administração da justiça. Portanto, um líder comunitário com uma influencia na comunidade. A situação que vivia sua família o obrigou a tomar uma decisão: ir ao encontro de Jesus. Ele procurou uma solução expondo sua angústia e sofrimento, pondo em risco sua reputação já que muitos líderes religiosos questionavam as ações do Senhor.
Como Pai, ele fez tudo o que podia para salvar sua filha. Ouviu falar dos milagres que Jesus fazia e não retardou em ir procurá-lo. No meio da multidão, Jairo se prosta, humilhando-se diante de todos na esperança de que o Senhor pudesse ajudá-lo. E eles partem caminhando na direção da casa dele. O caso é grave, é preciso pressa, pois a menina está convalescendo. No caminho alguém avisa: “não importunes mais o mestre, sua filha morreu”. Antes que o Pai se desesperasse, Jesus o consola dizendo “vamos”. “Mais o que ele ainda pode fazer?”, deve ter pensado esse chefe da sinagoga. A culpa, o remorso, a tristeza deviam ter invadido o seu coração nesse momento, mais mesmo assim, ele decide ir com o Senhor renovando o seu último suspiro de fé. Quando chegam a casa os lamentadores já estavam pranteando a menina que a pouco falecerá. “Não chores, a menina não morreu, disse Jesus”. As pessoas riram, debocharam. Outros se indignaram achando que ele zombava. Entraram no quarto da menina os pais e três apóstolos, Pedro, Tiago e João, que foram testemunhas do milagre. “Talitha qoum”, que em aramaico significa “menina, eu ordeno: levanta-te”. A alegria foi devolvida aquela casa e todos festejaram a sua nova vida.
Quantos pais não estão vivendo como Jairo sem esperança, desesperados, faltando às forças para continuar lutando? Que investiram tudo o que podiam para salvar os seus? O sofrimento dos filhos é dor que não ameniza, principalmente quando nos sentimos impotentes diante da situação. As lágrimas têm lavado o chão de muitas casas e muitos pais têm apelado pra qualquer coisa que possa resolver o problema.
Rezamos nesse momento pedindo que o Senhor escute o choro, gemido e impotência dos pais. Rezamos para que os pais confiem no Senhor e deixem que Ele seja seu amparo, consolo e proteção. Rezamos suplicando ao Senhor que venha, que nos acompanhe e se compadeça de nossa aflição.
Como Jairo, devemos procurar quem pode resolver nosso problema, e esse alguém é Jesus. Curiosamente podemos nos aproximar ou nos afastar do Senhor por causa da dor que sentimos. Conversei com uma senhora que havia me dito que o filho estava doente. Ela faz várias promessas, participava de correntes de oração para alcançar a cura do filho. Disse que tinha ido também ao centro espírita e feito um trabalho em uma casa de Umbanda. No nosso caminho podem surgir propostas ilusórias e enganadoras, vozes sedutoras e perversas. É preciso alertar que esse é um momento favorável para a ação diabólica e sem perceber nos vemos envolvidos em sombras e escuridão. 
Saúde é um processo harmonioso de bem-estar físico, psíquico, social e espiritual, e não apenas a ausência de doença. Devemos cuidar do “homem todo” para que ele viva de forma saudável. Isso exige de nós uma preocupação com o corpo e a alma, pois muitos males podem nos atingir provocando um estado de adoecimento.
Nesse sentido, algo que raramente nos preocupa é a alimentação. Isso é um grave erro porque comer bem me faz viver bem. Essa é uma luta diária que não se relaciona apenas com nossa sobrevivência, mas com a manutenção da vida, a vitalidade e a satisfação do individuo. Câmara Cascudo diz que é “inútil pensar que o alimento contenha apenas os elementos indispensáveis à nutrição. Contém substâncias imponderáveis e decisivas para o espírito, alegria, disposição criadora, bom humor”. O problema é que pertencemos a uma geração que come mal. A industrialização, as rotinas das cidades quase sempre aceleradas e agitadas, a ausência da mulher em casa por causa de sua presença no mercado de trabalho fez as pessoas começarem a procurar algo mais rápido e mais fácil para comer. Já não temos horários nem locais adequados para comer, e um reflexo desse mau hábito são as doenças crônicas que afetam desde crianças até idosos.
Isso também está relacionado com um antigo mal que é o da gula. Evágrio Pôntico nos alerta para esse problema  que ele chama de gastrimargia:
“A origem do fruto é a flor e a origem da disciplina espiritual é a moderação. Quem domina o próprio estômago, diminui as paixões; pelo contrário, quem é subjugado pela comida, aumenta os prazeres. Assim como Amalec é a origem dos povos, também a gula é a origem das paixões.”
São Tomás também  abordou essa doença em suas reflexões:
“A gula implica um desordenado desejo para comer. Ora, no comer duas coisas devem ser consideradas: o alimento que se come e a ação de comer. Daí os dois modos de entender essa concupiscência desordenada. Primeiro, quanto ao alimento que comemos. Assim, quanto à substância ou a espécie de comida, há quem procure alimentos refinados, isto é, caros [laute]; quanto à qualidade, há quem busque alimentos acuradamente preparados, isto é, meticulosamente [studiose]; e quanto à quantidade, há os que exageram, comendo em excesso [nimis]. - Em segundo lugar, considera-se a desordem da concupiscência, quanto ao ato de comer, ou por antecipar o tempo próprio para isso, isto é, apressadamente [praepropere]; ou por não observar a maneira conveniente de comer, isto é, avidamente [ardenter].”
            Como o ato de comer reflete um estado da alma, redescobrir hábitos saudáveis em nossas práticas alimentares pode influenciar a vida espiritual e social. A moderação é a virtude que nos auxilia a buscar a medida certa, não mais nem menos e sim o equilíbrio. Passo a olhar não para a comida, mas para aquele que come com o intuito de favorecer sua cura. Nesse processo, o relacionamento consigo mesmo e com os outros é beneficiado pela qualidade de vida, auto-estima, disposição e harmonia. Aprendemos que “se como bem, vivo bem, se como mal, vivo mal”.
            No processo de cura das doenças que atingem a nossa casa devemos recorrer aos meios espirituais e medicinais que possibilitem o restabelecimento do nosso bem-estar.
            Jairo recorreu a Jesus por reconhecer que ele poderia curar a doença da filha. Hoje, Nosso Senhor continua querendo curar o seu povo, restabelecer a saúde daqueles que sofrem. Devemos alertar também que muitas das doenças que tem atingido nossas casas são “psicossomáticas”. Sentimos dores no corpo, sofremos com complicações no intestino, estomago garganta, pulmões, músculos e articulações, coração, rins, bexiga e que não são explicadas por nenhuma doença ou alteração orgânica e sim por preocupações, angústia, ressentimento, rancor, culpa, ódio. Desgaste profissional, traumas, situações de violência, ansiedades e tristezas podem desencadear essas doenças que precisam ser tratadas. Devemos recorrer ao “médico dos médicos”, crer no seu poder, orar uns pelos implorando a intervenção divina.
            Os meios que nos são disponibilizados pela medicina não devem ser desprezados, ao contrário, precisam está associados ao processo de restabelecimento da nossa saúde:
“Honra o médico por causa da necessidade, pois foi o Altíssimo quem o criou. (Toda a medicina provém de Deus), e ele recebe presentes do rei: a ciência do médico o eleva em honra; ele é admirado na presença dos grandes. O Senhor fez a terra produzir os medicamentos: o homem sensato não os despreza. (...) O Altíssimo deu-lhes a ciência da medicina para ser honrado em suas maravilhas; e dela se serve para acalmar as dores e curá-las; o farmacêutico faz misturas agradáveis, compõe ungüentos úteis à saúde, e seu trabalho não terminará, até que a paz divina se estenda sobre a face da terra. Meu filho, se estiveres doente não te descuides de ti, mas ora ao Senhor, que te curará. Afasta-te do pecado, reergue as mãos e purifica teu coração de todo o pecado. Oferece um incenso suave e uma lembrança de flor de farinha; faze a oblação de uma vítima gorda. Em seguida dá lugar ao médico, pois ele foi criado por Deus; que ele não te deixe, pois sua arte te é necessária. Virá um tempo em que cairás nas mãos deles. E eles mesmos rogarão ao Senhor que mande por meio deles o alívio e a saúde (ao doente) segundo a finalidade de sua vida”. (Eclo 38,1-14)

domingo, 8 de setembro de 2019

As novelas de família - hoje e ontem, dramas e esperanças




“Alguns dias depois, Jesus entrou novamente em Carfanaum e souberam que ele estava em casa. Reuniu-se uma tal multidão, que não podiam encontrar lugar nem mesmo junto a porta” (Mc 2,1-2)
Você já viu o que acontece quando o povo se amontoa? As pessoas se empurram, gritam, se aborrecem. Hoje o povo continua se amontoando, aglomerando em vários lugares como estádios de futebol, shows, passeatas, manifestações, festas, peregrinações, etc. No estádio de futebol, por exemplo, todos se unem em uma mesma paixão, torcer pelo seu time. Uns saem felizes, outros tristes, ao final de uma partida. Ao longo da semana, irá se falar daquela partida, e às vezes por muito tempo, dependendo da importância daquele jogo. Mais nada consegue superar a força que os meios de comunicação têm para agregar, reunir e juntar pessoas sem que essas precisem se empurrar, atropelar ou bater. Milhares de pessoas acompanham ao mesmo tempo, a programação da TV. Existe o horário nobre da televisão, onde muitos acompanham atentos, sentados na sala ou em outro lugar da casa o que é exibido na programação. Opiniões, conceitos, juízo de valores e ideologias são transmitidas todos os dias em nossa casa. O que isso tem causado? Uma mudança de paradigma.

É inegável que vivemos uma “mudança de época” que pode ser percebido em todos os campos. Nos últimos anos, fomos vendo a desconfiguração do antigo regime de cristandade, onde tudo era movido pela fé cristã. Paulatinamente tem se procurado criar novos mecanismos de influencia que substitua a importância do cristianismo na sociedade e o melhor caminho que se encontrou pra isso foi através da cultura. Por um bom tempo fé e cultura andaram de mãos dadas e os esforços atuais são para dissocia-los o que tem causado um prejuízo a toda sociedade. Em nome de um novo projeto cultural, a fé cristã tem sido negligenciada, ironizada e pervertida.

Na antiga relação entre fé e cultura, os homens sempre criaram fábulas, lendas e mitos para narrar acontecimentos importantes ou transmitir lições para as novas gerações. A tarefa não era apenas entreter mais oferecer respostas aos dramas existenciais apontando caminhos para a superação dos desafios. A figura do herói aparece como um arquétipo que oferece um projeto a ser seguido, algo idealizado. Essa função atualmente foi assumida pela televisão.
Cada casa tem pelo menos um aparelho de televisão. Através dela, novos modelos culturais têm sido veiculados. São 8.760 horas de programação ininterruptas ao longo do ano provocando uma mudança que pode ser facilmente observado em nossas famílias. Uma pesquisa feita pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) apontou que existe uma relação entre o papel desempenhado pelas novelas e o crescimento dos divórcios. “A exposição a estilos de vida modernos mostrados na TV, a funções desempenhadas por mulheres emancipadas e uma crítica aos valores tradicionais mostrou estar associada aos aumentos nas frações de mulheres separadas e divorciadas nas áreas municipais brasileiras”, diz pesquisa. Segundo os autores do estudo, Alberto Chong e Eliana La Ferrara, “a parcela de mulheres que se separaram ou se divorciaram aumenta significativamente depois que o sinal da Globo se tornou disponível” nas cidades do país.
O que a pesquisa não aponta são os sofrimentos causados por causa dos divórcios. Toda separação é dolorosa, abre um verdadeiro corte no tecido social provocando um verdadeiro mosaico humano de cores terríveis. Muitos tentam reconstruir um novo lar trazendo pedaços de vidas e sonhos, esperanças, derrotas e fracassos que se juntam, deixando marcas na alma de algo arruinado. A conseqüência disso é perceptível: brigas, tristezas, vinganças, disputas judiciais, medo, angústia, insônia e isolamento são apenas alguns exemplos do que se vivencia depois de uma separação. Sem que se perceba, uma nova geração tem crescido sob esse signo que se reflete duramente na sociedade. Em forma de canção pe. Zezinho nos aponta o caminho para vencer esse mal, “que nenhuma família comece em qualquer de repente, que nenhuma família termine por falta de amor, que o casal seja um para o outro de corpo e de mente e que nada no mundo separe o casal sonhador”.
A nova indústria cultural tem nas novelas o seu grande divulgador das “normas” que devem pautar o comportamento social. Edgar Morin já denunciava que a cultura de massa “destituiu parcialmente a família, a escola, a pátria, do seu papel formador, na medida em que os ‘modelos’ do pai, do educador, dos grandes homens foram vencidos pelos novos modelos de cultura que lhe fazem concorrência”. A nova invenção tem sido a ideologia de gênero amplamente divulgada nas novelas. Basicamente podemos dizer que esse conceito afirma que ninguém nasce homem ou mulher, mas que cada indivíduo deve construir sua própria identidade, isto é, seu gênero, ao longo da vida. “Homem” e “mulher”, portanto, seriam apenas criações culturais que justificaram ao longo da história as relações de dominação que marcaram as famílias. Os comportamentos e definições do ser homem ou mulher não são coisas dadas pela natureza e pela biologia, mas pela cultura e pela sociedade, segundo a ideologia de gênero.
Isso tem causado uma grande confusão na cabeça de pais e filhos, crianças e adolescentes que acabam não tendo mais certeza sobre sua própria identidade. Isso tem várias conseqüências, mas o que gostaria de apontar é o apelo a “experimentação” como caminho para as descobertas. Isso é um mal sutil que tem invertido as relações. Como se acredita que não exista homem ou mulher, o papel desempenhado por ambos se tornou relativo, como por exemplo, o papel de pai ou mãe. Se fala de espaços de cuidado. Questiona-se comemorações como o dia dos pais ou das mães por considerar o constrangimento sofrido por aqueles que não tem pai ou mãe ou que não se identifica com esse estereótipo criado pela cultura ocidental. Os valores transmitidos pelo cristianismo como monogamia, a fidelidade, a exclusividade e compromisso definitivo foram minimizados dando lugar a uma “experiência de convivência” que anula esses valores em nome da satisfação de prazeres necessários para se descobrir as escolhas que se deve fazer.
Cremos no poder do amor que tudo transforma e que cria vínculos fortíssimos. Cremos que Deus criou homem e mulher para uma relação dialógica e complementar, ampliando assim, perspectivas e horizontes. Cremos na lição da cruz que nos ensina que para amar, precisamos aprender o que significa a doação de si mesmo. Cremos na força das relações familiares baseadas no respeito, na comunhão, no perdão, na responsabilidade, entrega e compromisso. Cremos que em Cristo descobrimos quem nós realmente somos, filhos de Deus, criados a sua imagem e semelhança, salvos pelo sacrifício do Filho amado.
Existe uma novela dramática com final feliz que dela participamos. O personagem principal é o próprio Filho de Deus, nascido da Virgem Maria, homem como nós. Cresceu na periferia de Nazaré, onde pode sentir as dores e sofrimentos do povo marginalizado. Contudo, sentado no colo da sua mãe aprendeu os valores da sua religião e testemunhou como jovem aquilo que aprendeu. Seu pai, honesto trabalhador, lhe ensinou o oficio da carpintaria e mesmo lhe deixando muito cedo, cumpriu seu papel sendo para o menino, pai cheio de sabedoria. Depois de um tempo, percebeu que era hora de deixar a casa da sua mãe para começar sua tarefa. Ele dizia a quem encontrava pelo caminho, “arrependei-vos e crede no Evangelho”. Não bateu nas portas do palácio, nem mesmo se dirigiu as estradas que lhe levavam até lá, ele preferiu os lugares afastados, as casas dos sem nome, os rostos dos pobres e desvalidos.
Sua fama incomodou a muitos que passaram a persegui-lo. As autoridades acompanhavam suas idas e vindas querendo apanhá-lo em algum erro que pudesse apagar sua importância. Não conseguiram. Por isso, tramaram, mentiram. Em um processo fraudulento foi preso e condenado a morte. De forma humilhante padeceu. A esperança findou, pensavam alguns. Mais não. A vida venceu a morte, ele havia dito que ressuscitaria ao terceiro dia.
Os capítulos dessa novela são contados e recontados ainda hoje. O personagem principal desse drama transforma anônimos em famosos. Em torno da sua casa (a Igreja) muitos continuam se aglomerando para ouvi-lo, para aprender suas valiosas lições.