quinta-feira, 15 de agosto de 2019

A casa de Nazaré


"Naqueles tempos apareceu um decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de toda a terra. Este recenseamento foi feito antes do governo de Quirino, na Síria. Todos iam alistar-se, cada um na sua cidade. Também José subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, à Judéia, à Cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, para se alistar com a sua esposa Maria, que estava grávida (...) Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o menino, foi-lhe posto o nome de Jesus, como lhe tinha chamado o anjo, antes de ser concebido no seio materno. Concluídos os dias da sua purificação segundo a Lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para o apresentar ao Senhor (...) Após terem observado tudo segundo a lei do Senhor, voltaram para a Galiléia, à sua cidade de Nazaré. O menino ia crescendo e se fortificava: estava cheio de sabedoria, e a graça de Deus repousava nele”. (Lc 2, 1ss)
Quis o Filho de Deus, o Emanuel (Deus conosco) “fazer morada” no seio de uma família, viver o cotidiano de uma casa. Mas, qual é mesmo o cotidiano de uma casa? Essa é uma resposta que todos podem dar. Cada um dentro da sua realidade própria vive uma rotina. Acordar, tomar café, se arrumar pra ir ao trabalho, deixar os filhos na escola. Hora do almoço, bate papo com os colegas do trabalho. Olhamos para o relógio várias vezes, afinal, o tempo marca todas as nossas ações. Esperamos ansiosamente pelo fim do expediente, pela hora de voltar para casa, descansar, se encontrar com familiares e amigos, ir ao bar, a academia ou simplesmente ficar na frente da televisão acompanhando a programação que nos interessa. São tantas as nossas obrigações, que a rotina pode nos transformar em robôs, automatizando nossas relações o que impede de “bem contar os nossos dias” (Cf. Sl 89,12).
Dentro do nosso contexto social, o nosso cotidiano segue certo ritual. Para as crianças e jovens, o ritual da vida estudantil, esportiva, afetiva (paqueras, namoros, amigos...). Para os adultos o ritual é outro: trabalho, casamento, finanças, moradia, saúde, educação, lazer. Em cada etapa da vida seguimos um ritual próprio, que caracteriza o nosso cotidiano. Sejam ricos ou pobres, crianças ou adultos, todos tem responsabilidades ao longo da sua vida. Todos precisam “aprender a viver”, dar sentido a própria existência, fazer com que as experiências vividas sejam “prenhas” de valores fazendo com que a rotina ganhe um novo sentido. É através da experiência com Deus que passamos a encontrar um significado para nossa existência, cultivando essa presença que nos faz re-descobrir que cada passo da nossa vivência não é em vão. 
Para “aprender a viver” colocamos os nossos olhos na família de Nazaré. Qual a rotina de Maria, José e Jesus? Maria acordava cedo pra preparar a refeição como toda mulher do seu tempo, cuidar dos trabalhos domésticos, cozinhar, costurar, essas eram algumas de suas obrigações. José saia cedo para o trabalho, porque como sabemos, ele tinha uma profissão, era carpinteiro, e Jesus era conhecido na cidade como o “filho do carpinteiro” e deve ter aprendido esse ofício com seu pai. Na sociedade patriarcal, José é “o pai”, ele é o chefe, é quem cuida do sustento da casa. Todos freqüentavam a sinagoga e celebravam as tradições e costumes de um judeu piedoso. Por que essa casa se transformou em um modelo “para todas as nossas casas?”, Que diferença marca essa família? A diferença está justamente em transformar o ordinário em extra-ordinário. A santidade familiar consiste nisso.
                        Por que a Sagrada Família é modelo de santidade familiar? Porque eles souberam transformar o ordinário em extraordinário, fizeram do cotidiano de suas vidas uma forma de fazer a vontade de Deus. O que fizeram José e Maria ao longo da sua vida? Simplesmente transformaram o ritual de cada dia em algo extraordinário, permeado de amor, porque essa é a medida de toda santidade familiar: o amor nosso de cada dia, renovado, cultivado, cativado, celebrado! Mais isso não depende só da nossa vontade. Deus é amor (1 Jo 4,8) e Nele aprendemos a amar. Foi isso que José e Maria fizeram, deixaram-se amar por Deus. As historias, normas, credos, sagas, façanhas, poemas e narrativas do seu povo fizeram com que eles embarcassem na mais incrível aventura de todas, que é a de sentir-se amado por Deus. Dessa forma, o que importava pra eles era agradar a Deus, se submeter a Ele com reverência, obediência e satisfação. O que José e Maria fizeram foi uma resposta grata ao chamado divino, o seu fiat continua ressoando até hoje. Eles descobriram que é nisto que consiste a verdadeira felicidade.
            Maria estava prometida a José, e em bem pouco tempo passariam a viver juntos. Era o costume da época, porém a divina providência reservava uma surpresa pra ambos. A Virgem Filha de Sião vivia na periferia, em Nazaré, e recebeu uma visita inesperada. O anjo Gabriel aparece em sua casa e a saúda “alegra-te cheia de graça”. A Palavra de Deus alcança Maria em meio à rotina do seu dia a dia. No diálogo ela aceita o projeto de Deus, se entrega, se coloca na condição de serva. José também recebe a visita do anjo. É um homem justo, e por isso participa do projeto de Deus. Ele conhecia a profecia que dizia que uma virgem conceberia e daria a luz a um menino (Cf. Is 7,14), o que José não sabia era que Maria, sua noiva, tinha sido escolhida por Deus para ser a jovem da profecia. Então ele recebe Maria em sua casa. Eles passaram a viver juntos na alegria do chamado que lhes foi feito.
            As paredes da casa de Nazaré escondem a alegria do chamado que Deus fez a esse casal. Nós podemos seguir seu exemplo, porque as vicissitudes de seu dia-a-dia são as nossas hoje. A diferença é que a presença de Deus foi celebrada a cada dia naquela casa, transformando o ordinário em extraoridinário.
A vida em uma casa começa com uma forte decisão, ambos decidem compartilhar seus sonhos, projetos, planos, interesses, sucessos e fracassos. Mais quantos casais submetem a Deus a sua decisão de viverem  juntos? Em uma canção pe. Zezinho expõe uma preocupação que tem importado a poucos, “que nenhuma família comece em qualquer de repente”. Deus deve está no começo dessa importante decisão que o casal pretende tomar, se tornando o companheiro dessa jornada que apenas se inicia.
  Cremos que de forma misteriosa Deus aproxima os dois, homem e mulher são criados em uma relação de complementaridade e na convivência vão re-criando o projeto original do Criador que quis fazer dessa união um só corpo, que depois de unido, não pode separado. Temos visto que quando separado, se abre uma grande cisão no tecido social com conseqüências trágicas.
É de grande valor a vida do casal. A celebração do amor no cotidiano se torna um sacramento para o mundo onde as pessoas podem reconhecer a Deus que quer se manifestar através dessa união. O fato de ser Deus quem apresenta a mulher ao homem (Cf. Gn 2,18) é de grande força simbólica, porque no começo de toda vivência matrimonial está à mão de Deus que atrai homem e a mulher a uma vocação. É diante de Deus que o casal dar o seu consentimento, por isso, além dos compromissos familiares que assumem a partir de então, pesa sobre a “nova casa” compromissos cristãos que não podem ser abandonados sobe pena de vir a ruir todo o edifício construído.
Compreendemos que a decisão que marca a nossa casa deve ser a mesma da Sagrada Família. Peçamos a intercessão de Jesus, Maria e José para viver um amor fecundo capaz de re-criar novas relações que façam da nossa rotina uma grande descoberta. Nossa extraordinária história começou a ser escrita e Deus ainda não colocou o ponto final, portanto, rogamos ao Espírito que guie nossos passos na direção da casa de Nazaré, para criar um desejo continuo de fazer a vontade de Deus.

Nenhum comentário:

Postar um comentário