"Naqueles tempos apareceu um decreto de César Augusto,
ordenando o recenseamento de toda a terra. Este recenseamento foi feito antes
do governo de Quirino, na Síria. Todos iam alistar-se, cada um na sua cidade.
Também José subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, à Judéia, à Cidade de Davi,
chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, para se alistar com a sua
esposa Maria, que estava grávida (...) Completados que foram os oito dias para
ser circuncidado o menino, foi-lhe posto o nome de Jesus, como lhe tinha
chamado o anjo, antes de ser concebido no seio materno. Concluídos os dias da
sua purificação segundo a Lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém para o
apresentar ao Senhor (...) Após terem observado tudo segundo a lei do Senhor,
voltaram para a Galiléia, à sua cidade de Nazaré. O menino ia crescendo e se
fortificava: estava cheio de sabedoria, e a graça de Deus repousava nele”. (Lc 2, 1ss)
Quis
o Filho de Deus, o Emanuel (Deus conosco) “fazer morada” no seio de uma
família, viver o cotidiano de uma casa. Mas, qual é mesmo o cotidiano de uma
casa? Essa é uma resposta que todos podem dar. Cada um dentro da sua realidade
própria vive uma rotina. Acordar, tomar café, se arrumar pra ir ao trabalho,
deixar os filhos na escola. Hora do almoço, bate papo com os colegas do
trabalho. Olhamos para o relógio várias vezes, afinal, o tempo marca todas as
nossas ações. Esperamos ansiosamente pelo fim do expediente, pela hora de
voltar para casa, descansar, se encontrar com familiares e amigos, ir ao bar, a
academia ou simplesmente ficar na frente da televisão acompanhando a
programação que nos interessa. São tantas as nossas obrigações, que a rotina
pode nos transformar em robôs, automatizando nossas relações o que impede de “bem contar os nossos dias” (Cf. Sl
89,12).
Dentro
do nosso contexto social, o nosso cotidiano segue certo ritual. Para as
crianças e jovens, o ritual da vida estudantil, esportiva, afetiva (paqueras,
namoros, amigos...). Para os adultos o ritual é outro: trabalho, casamento,
finanças, moradia, saúde, educação, lazer. Em cada etapa da vida seguimos um
ritual próprio, que caracteriza o nosso cotidiano. Sejam ricos ou pobres,
crianças ou adultos, todos tem responsabilidades ao longo da sua vida. Todos
precisam “aprender a viver”, dar sentido a própria existência, fazer com que as
experiências vividas sejam “prenhas” de valores fazendo com que a rotina ganhe
um novo sentido. É através da experiência com Deus que passamos a encontrar um
significado para nossa existência, cultivando essa presença que nos faz
re-descobrir que cada passo da nossa vivência não é em vão.
Para
“aprender a viver” colocamos os nossos olhos na família de Nazaré. Qual a
rotina de Maria, José e Jesus? Maria acordava cedo pra preparar a refeição como
toda mulher do seu tempo, cuidar dos trabalhos domésticos, cozinhar, costurar,
essas eram algumas de suas obrigações. José saia cedo para o trabalho, porque
como sabemos, ele tinha uma profissão, era carpinteiro, e Jesus era conhecido
na cidade como o “filho do carpinteiro” e deve ter aprendido esse ofício com
seu pai. Na sociedade patriarcal, José é “o pai”, ele é o chefe, é quem cuida do
sustento da casa. Todos freqüentavam a sinagoga e celebravam as tradições e
costumes de um judeu piedoso. Por que essa casa se transformou em um modelo
“para todas as nossas casas?”, Que diferença marca essa família? A diferença
está justamente em transformar o ordinário em extra-ordinário. A santidade
familiar consiste nisso.
Por
que a Sagrada Família é modelo de santidade familiar? Porque eles souberam
transformar o ordinário em extraordinário, fizeram do cotidiano de suas vidas
uma forma de fazer a vontade de Deus. O que fizeram José e Maria ao longo da
sua vida? Simplesmente transformaram o ritual de cada dia em algo
extraordinário, permeado de amor, porque essa é a medida de toda santidade familiar:
o amor nosso de cada dia, renovado, cultivado, cativado, celebrado! Mais isso
não depende só da nossa vontade. Deus é amor (1 Jo 4,8) e Nele aprendemos a
amar. Foi isso que José e Maria fizeram, deixaram-se amar por Deus. As
historias, normas, credos, sagas, façanhas, poemas e narrativas do seu povo
fizeram com que eles embarcassem na mais incrível aventura de todas, que é a de
sentir-se amado por Deus. Dessa forma, o que importava pra eles era agradar a
Deus, se submeter a Ele com reverência, obediência e satisfação. O que José e
Maria fizeram foi uma resposta grata ao chamado divino, o seu fiat continua
ressoando até hoje. Eles descobriram que é nisto que consiste a verdadeira
felicidade.
Maria estava prometida a José, e em
bem pouco tempo passariam a viver juntos. Era o costume da época, porém a
divina providência reservava uma surpresa pra ambos. A Virgem Filha de Sião
vivia na periferia, em Nazaré, e recebeu uma visita inesperada. O anjo Gabriel
aparece em sua casa e a saúda “alegra-te cheia de graça”. A Palavra de Deus
alcança Maria em meio à rotina do seu dia a dia. No diálogo ela aceita o
projeto de Deus, se entrega, se coloca na condição de serva. José também recebe
a visita do anjo. É um homem justo, e por isso participa do projeto de Deus.
Ele conhecia a profecia que dizia que uma virgem conceberia e daria a luz a um
menino (Cf. Is 7,14), o que José não sabia era que Maria, sua noiva, tinha sido
escolhida por Deus para ser a jovem da profecia. Então ele recebe Maria
em sua casa. Eles passaram a viver juntos na alegria do chamado que lhes foi
feito.
As paredes da casa de Nazaré
escondem a alegria do chamado que Deus fez a esse casal. Nós podemos seguir seu
exemplo, porque as vicissitudes de seu dia-a-dia são as nossas hoje. A
diferença é que a presença de Deus foi celebrada a cada dia naquela casa, transformando
o ordinário em extraoridinário.
A
vida em uma casa começa com uma forte decisão, ambos decidem compartilhar seus
sonhos, projetos, planos, interesses, sucessos e fracassos. Mais quantos casais
submetem a Deus a sua decisão de viverem
juntos? Em uma canção pe. Zezinho expõe uma preocupação que tem
importado a poucos, “que nenhuma família
comece em qualquer de repente”. Deus deve está no começo dessa importante
decisão que o casal pretende tomar, se tornando o companheiro dessa jornada que
apenas se inicia.
Cremos que de forma misteriosa Deus aproxima
os dois, homem e mulher são criados em uma relação de complementaridade e na
convivência vão re-criando o projeto original do Criador que quis fazer dessa
união um só corpo, que depois de unido, não pode separado. Temos visto que
quando separado, se abre uma grande cisão no tecido social com conseqüências trágicas.
É
de grande valor a vida do casal. A celebração do amor no cotidiano se torna um
sacramento para o mundo onde as pessoas podem reconhecer a Deus que quer se
manifestar através dessa união. O fato de ser Deus quem apresenta a mulher ao
homem (Cf. Gn 2,18) é de grande força simbólica, porque no começo de toda
vivência matrimonial está à mão de Deus que atrai homem e a mulher a uma
vocação. É diante de Deus que o casal dar o seu consentimento, por isso, além
dos compromissos familiares que assumem a partir de então, pesa sobre a “nova
casa” compromissos cristãos que não podem ser abandonados sobe pena de vir a
ruir todo o edifício construído.
Compreendemos
que a decisão que marca a nossa casa deve ser a mesma da Sagrada Família.
Peçamos a intercessão de Jesus, Maria e José para viver um amor fecundo capaz
de re-criar novas relações que façam da nossa rotina uma grande descoberta.
Nossa extraordinária história começou a ser escrita e Deus ainda não colocou o
ponto final, portanto, rogamos ao Espírito que guie nossos passos na direção da
casa de Nazaré, para criar um desejo continuo de fazer a vontade de Deus.
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