“Tendo Jesus navegado outra vez para a
margem oposta, de novo afluiu a ele uma grande multidão. Ele se achava à beira
do mar, quando um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo, se apresentou e, à sua
vista, lançou-se aos seus pés, rogando-lhe com insistência: Minha filhinha está nas
últimas. Vem, impõe-lhe as mãos para que se salve e viva” (Mc 5,21-23)
No
episódio da filha de Jairo, vemos um pai aflito, perturbado pela situação em
que sua filha se encontra. Ela estava moribunda, quase morta e precisava de um
milagre. Seu pai já havia tentado tudo, procurado médicos, usado vários
remédios sem muito resultado. Jairo era chefe da sinagoga responsável pela
presidência da assembléia, supervisão dos cultos, leitura da Escritura,
questões legais e administração da justiça. Portanto, um líder comunitário com
uma influencia na comunidade. A situação que vivia sua família o obrigou a
tomar uma decisão: ir ao encontro de Jesus. Ele procurou uma solução expondo
sua angústia e sofrimento, pondo em risco sua reputação já que muitos líderes
religiosos questionavam as ações do Senhor.
Como
Pai, ele fez tudo o que podia para salvar sua filha. Ouviu falar dos milagres
que Jesus fazia e não retardou em ir procurá-lo. No meio da multidão, Jairo se
prosta, humilhando-se diante de todos na esperança de que o Senhor pudesse
ajudá-lo. E eles partem caminhando na direção da casa dele. O caso é grave, é
preciso pressa, pois a menina está convalescendo. No caminho alguém avisa: “não
importunes mais o mestre, sua filha morreu”. Antes que o Pai se desesperasse,
Jesus o consola dizendo “vamos”. “Mais o que ele ainda pode fazer?”, deve ter pensado esse chefe da
sinagoga. A culpa, o remorso, a tristeza deviam ter invadido o seu coração nesse
momento, mais mesmo assim, ele decide ir com o Senhor renovando o seu último
suspiro de fé. Quando chegam a casa os lamentadores já estavam pranteando a
menina que a pouco falecerá. “Não chores, a menina não morreu, disse Jesus”. As
pessoas riram, debocharam. Outros se indignaram achando que ele zombava.
Entraram no quarto da menina os pais e três apóstolos, Pedro, Tiago e João, que
foram testemunhas do milagre. “Talitha qoum”, que em aramaico significa
“menina, eu ordeno: levanta-te”. A alegria foi devolvida aquela casa e todos
festejaram a sua nova vida.
Quantos
pais não estão vivendo como Jairo sem esperança, desesperados, faltando às
forças para continuar lutando? Que investiram tudo o que podiam para salvar os
seus? O sofrimento dos filhos é dor que não ameniza, principalmente quando nos
sentimos impotentes diante da situação. As lágrimas têm lavado o chão de muitas
casas e muitos pais têm apelado pra qualquer coisa que possa resolver o
problema.
Rezamos
nesse momento pedindo que o Senhor escute o choro, gemido e impotência dos
pais. Rezamos para que os pais confiem no Senhor e deixem que Ele seja seu
amparo, consolo e proteção. Rezamos suplicando ao Senhor que venha, que nos
acompanhe e se compadeça de nossa aflição.
Como
Jairo, devemos procurar quem pode resolver nosso problema, e esse alguém é
Jesus. Curiosamente podemos nos aproximar ou nos afastar do Senhor por causa da
dor que sentimos. Conversei com uma senhora que havia me dito que o filho
estava doente. Ela faz várias promessas, participava de correntes de oração
para alcançar a cura do filho. Disse que tinha ido também ao centro espírita e
feito um trabalho em uma casa de Umbanda. No nosso caminho podem surgir
propostas ilusórias e enganadoras, vozes sedutoras e perversas. É preciso
alertar que esse é um momento favorável para a ação diabólica e sem perceber
nos vemos envolvidos em sombras e escuridão.
Saúde
é um processo harmonioso de bem-estar físico, psíquico, social e espiritual, e
não apenas a ausência de doença. Devemos cuidar do “homem todo” para que ele
viva de forma saudável. Isso exige de nós uma preocupação com o corpo e a alma,
pois muitos males podem nos atingir provocando um estado de adoecimento.
Nesse
sentido, algo que raramente nos preocupa é a alimentação. Isso é um grave erro
porque comer bem me faz viver bem. Essa é uma luta diária que não se relaciona
apenas com nossa sobrevivência, mas com a manutenção da vida, a vitalidade e a
satisfação do individuo. Câmara Cascudo diz que é “inútil pensar que o alimento contenha apenas os elementos
indispensáveis à nutrição. Contém substâncias imponderáveis e decisivas para o
espírito, alegria, disposição criadora, bom humor”. O problema é que
pertencemos a uma geração que come mal. A industrialização, as rotinas das
cidades quase sempre aceleradas e agitadas, a ausência da mulher em casa por
causa de sua presença no mercado de trabalho fez as pessoas começarem a procurar algo
mais rápido e mais fácil para comer. Já não temos horários nem locais adequados
para comer, e um reflexo desse mau hábito são as doenças crônicas que
afetam desde crianças até idosos.
Isso também está relacionado com um
antigo mal que é o da gula. Evágrio Pôntico nos alerta para esse problema que ele chama de gastrimargia:
“A origem do fruto é a flor e a origem
da disciplina espiritual é a moderação. Quem domina o próprio estômago,
diminui as paixões; pelo contrário, quem é subjugado pela comida, aumenta
os prazeres. Assim como Amalec é a origem dos povos, também a gula é a origem
das paixões.”
São
Tomás também abordou essa doença em suas
reflexões:
“A gula implica um desordenado desejo para
comer. Ora, no comer duas coisas devem ser consideradas: o alimento que se come
e a ação de comer. Daí os dois modos de entender essa concupiscência
desordenada. Primeiro, quanto ao alimento que comemos. Assim, quanto à
substância ou a espécie de comida, há quem procure alimentos refinados, isto é,
caros [laute]; quanto à qualidade, há quem busque alimentos acuradamente
preparados, isto é, meticulosamente [studiose]; e quanto à quantidade, há os
que exageram, comendo em excesso [nimis]. - Em segundo lugar, considera-se a
desordem da concupiscência, quanto ao ato de comer, ou por antecipar o tempo
próprio para isso, isto é, apressadamente [praepropere]; ou por não observar a
maneira conveniente de comer, isto é, avidamente [ardenter].”
Como
o ato de comer reflete um estado da alma, redescobrir hábitos saudáveis em
nossas práticas alimentares pode influenciar a vida espiritual e social. A
moderação é a virtude que nos auxilia a buscar a medida certa, não mais nem
menos e sim o equilíbrio. Passo a olhar não para a comida, mas para aquele que
come com o intuito de favorecer sua cura. Nesse processo, o relacionamento
consigo mesmo e com os outros é beneficiado pela qualidade de vida,
auto-estima, disposição e harmonia. Aprendemos que “se como bem, vivo bem, se
como mal, vivo mal”.
No processo de cura das doenças que
atingem a nossa casa devemos recorrer aos meios espirituais e medicinais que
possibilitem o restabelecimento do nosso bem-estar.
Jairo
recorreu a Jesus por reconhecer que ele poderia curar a doença da filha. Hoje,
Nosso Senhor continua querendo curar o seu povo, restabelecer a saúde daqueles
que sofrem. Devemos alertar também que muitas das doenças que tem atingido
nossas casas são “psicossomáticas”.
Sentimos dores no corpo, sofremos com complicações no intestino, estomago
garganta, pulmões, músculos e articulações, coração, rins, bexiga e que não são
explicadas por nenhuma doença ou alteração orgânica e sim por preocupações,
angústia, ressentimento, rancor, culpa, ódio. Desgaste profissional, traumas,
situações de violência, ansiedades e tristezas podem desencadear essas doenças
que precisam ser tratadas. Devemos recorrer ao “médico dos médicos”, crer no
seu poder, orar uns pelos implorando a intervenção divina.
Os meios que nos são
disponibilizados pela medicina não devem ser desprezados, ao contrário,
precisam está associados ao processo de restabelecimento da nossa saúde:
“Honra o médico por causa da necessidade,
pois foi o Altíssimo quem o criou. (Toda a medicina provém de Deus), e ele
recebe presentes do rei: a ciência do médico o eleva em honra; ele é admirado
na presença dos grandes. O Senhor fez a terra produzir os medicamentos: o homem
sensato não os despreza. (...) O Altíssimo deu-lhes a ciência da medicina para
ser honrado em suas maravilhas; e dela se serve para acalmar as dores e
curá-las; o farmacêutico faz misturas agradáveis, compõe ungüentos úteis à
saúde, e seu trabalho não terminará, até que a paz divina se estenda sobre a
face da terra. Meu filho, se estiveres doente não te descuides de ti, mas ora
ao Senhor, que te curará. Afasta-te do pecado, reergue as mãos e purifica teu
coração de todo o pecado. Oferece um incenso suave e uma lembrança de flor de
farinha; faze a oblação de uma vítima gorda. Em seguida dá lugar ao médico,
pois ele foi criado por Deus; que ele não te deixe, pois sua arte te é
necessária. Virá um tempo em que cairás nas mãos deles. E eles mesmos rogarão
ao Senhor que mande por meio deles o alívio e a saúde (ao doente) segundo a
finalidade de sua vida”. (Eclo 38,1-14)
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