sábado, 31 de agosto de 2019

A casa da sogra de Pedro



“Assim que saíram da sinagoga, dirigiram-se com Tiago e João à casa de Simão e Andre. A sogra de Simão estava de cama, com febre; e sem tardar, falaram-lhe a respeito dela. Aproximando-se ele, tomou-a pela mão e levantou-a. Imediatamente a febre a deixou e ela pôs-se a servi-los” (Mc 1,30-31).
            Jesus foi até a casa de André e Simão Pedro para descansar, depois de um longo dia de trabalho. “Sem tardar”, os que estavam em casa foram falar da sogra de Pedro, preocupados com o seu estado de saúde. Ela estava com febre. Podemos compreender a preocupação deles. Como o papel da mulher na cultura judaica consistia no cuidado da casa, sua enfermidade colocou em risco toda a “rotina” da casa que em grande parte, dependia da mulher. O trabalho do homem era completado pelo trabalho da mulher. Ele caça e pesca, ela cozinha. Ele apascenta o rebanho e ela cuida da tosquia e apanhar o leite. Ele colhe o fruto da terra e ela prepara. O autor do livro dos Provérbios elogia o papel da mulher virtuosa que coopera com o trabalho do homem: 
"Uma mulher virtuosa, quem pode encontrá-la? Superior ao das pérolas é o seu valor. Confia nela o coração de seu marido, e jamais lhe faltará coisa alguma. Ela lhe proporciona o bem, nunca o mal, em todos os dias de sua vida. Ela procura lã e linho e trabalha com mão alegre. Semelhante ao navio do mercador, manda vir seus víveres de longe. Levanta-se, ainda de noite, distribui a comida à sua casa e a tarefa às suas servas. (...) Põe a mão na roca, seus dedos manejam o fuso. Estende os braços ao infeliz e abre a mão ao indigente. Ela não teme a neve em sua casa, porque toda a sua família tem vestes duplas. Faz para si cobertas: suas vestes são de linho fino e de púrpura. (...) Vigia o andamento de sua casa e não come o pão da ociosidade” (31,10-27).
Com a emancipação da mulher, o seu papel na sociedade mudou mais ela continua sendo a “cuidadora”. A mulher pode dedicar horas ao trabalho “fora de casa”, mais quando chega, é ela que cuida de tudo. A rotina de uma casa funciona sob os olhares atentos de uma mulher, que exerce o governo de forma eficiente. A sua força se manifesta principalmente nessa capacidade de organização da casa, nosso lugar comum. O homem também desempenha esse papel de cuidador transmitindo aos seus, segurança e proteção. Em casa o homem não ajuda, ele cuida também. Participar das decisões, acompanhar a mulher, coopera com a rotina da casa, exercer uma paternidade ativa e responsável são tarefas que o homem deve realizar. Ambos, homem e mulher, em suas diferenças se completam, são parceiros, é assim que Deus os vê, é assim que eles precisam se vê também.
Jesus “aproxima-se dela”. Esse gesto é muito significativo. Em época de redes sociais, jogos on-line, televisão e novas tecnologias, chegar perto, estabelecer uma comunicação sem telas ou teclas se tornou um grande desafio. Nossos amigos são “virtuais”, o que faz com que nossas relações sejam cada vez mais superficiais. Vemos apenas imagens que muitas vezes se distanciam da realidade criando um mundo de aparências. Uma vez conversando com uma amiga, ela dizia que havia participado de um evento, e disse que se dependesse dela, não teria ido. Porem, sua foto da rede social dizia outra coisa.
Em nossa casa, tudo é real, e quem convive conosco nos conhece como somos. Não podemos deixar que em nossa casa se crie uma distância por causa dessas novas tecnologias. Muitas vezes, damos atenção a quem está a quilômetros de distância e não nos interessamos por quem mora conosco. É obvio, que não se espera que abandonemos as novas tecnologias mais que a usemos para favorecer um maior envolvimento com as pessoas, principalmente os da nossa casa.
. Nossa casa como uma pequena comunidade exige essa aproximação, envolvimento, pois sem isso, a convivência torna-se sem gosto, sem sabor. Estabelecer relações é uma necessidade que é saciada quando o outro presta atenção, interessa-se pelo que estamos vivendo.
As novas relações estabelecidas no ambiente familiar mudaram. Os pais têm uma exaustiva carga horária o que por vezes o afasta do convívio dos filhos, o que é um grande perigo. Fazendo uma simples atividade com uns alunos investigando sua arvore genealógica, me assustei porque muitos não sabiam o que os pais faziam, onde tinham nascido o que é reflexo do distanciamento que foi estabelecido. Criam-se muros de desconhecimento, desinteresse e indiferença que precisam ser derrubados. Ilhas foram criadas dentro da própria casa e é urgente trazer todos para terra firme pra que voltem a estabelecer vínculos.

Vínculos de parentesco existem e são fortíssimos, criando laços afetivos e efetivos indispensáveis para a cura das feridas causadas pelo distanciamento. Existem pais que estão abandonando os seus filhos morando debaixo do mesmo teto. Marido e mulher têm enterrado o interesse que antes existia um pelo outro. Alguns exemplos simples podem ilustrar isso. Quando você vai sair de casa, sua companheira lhe examina e logo emite uma opinião. Quando não se interessa mais, você sai de casa rasgado e ela nem presta mais atenção. Ela cortou o cabelo e você logo percebe. Quando a distância se estabelece, ela pinta o cabelo, corta e você vai notar uma semana depois. Os pais não acompanham a rotina escolar dos filhos, não sabem quem são seus amigos. Não se Importar, preocupar ou interessar-se por quem convive com você causa uma dor terrível, e isso reflete um enfraquecimento do amor.

Ao se aproximar da sogra de Simão, “Jesus a toma pela mão e a levanta”. Ela soube a partir daquele momento que não estava sozinha. No ano de 2015 minha esposa foi parar na UTI com um quadro de infecção generalizada. Muitos ficaram ao nosso lado, se aproximaram nos ajudando a passar por essa situação. Sozinhos somos fracos, juntos somos fortes. Essa é uma lição que precisamos aprender. Uma casa unida, onde a convivência é fortalecida a cada dia, não perece, mais vence qualquer tribulação.
Simbolicamente, podemos dizer que esse gesto de Nosso Senhor demonstra uma necessidade de presença afetiva capaz de curar, pois é o amor que cria “laços mais forte que a morte”. Devemos falar ao “Médico dos médicos” das nossas enfermidades, pois ele quer nos curar para restabelecer a boa convivência dentro da nossa casa. Ele quer nos curar da indiferença e egoísmo, do distanciamento e abandono que se criou dentro do lar. Devemos orar pelos males que crescem dentro da nossa casa pela falta de cuidado. Ao invés de reclamar da falta de cuidado da minha mulher, devo orar por ela pra que se estabeleça uma nova relação assinalada pelo amor e o perdão. Devo cuidar dela pra que assim, minha ação marcada pelo Espírito do Mestre, transforme sua vida. Oremos pra que os muros caiam e o casal, seus filhos e filhas se aproximem um do outro. Jesus ouviu o que disseram os moradores da casa de Pedro sobre sua sogra. Ele então se aproximou. Faça o mesmo, não deixe a distancia “fazer morrer” a beleza da convivência que pode curar nossas enfermidades.

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